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Archive 1985 · Detroit

Detroit, 1985: o nascimento do techno

Como três adolescentes de uma cidade em colapso inventaram o som que definiria o futuro da pista de dança

Detroit, 1985: o nascimento do techno

São três da manhã em algum lugar dos subúrbios de Detroit, e a Electrifying Mojo está no ar. A Midnight Funk Association toca por horas seguidas, numa mistura que só faz sentido dentro da cabeça de quem a programa: Kraftwerk emendado em Parliament, Prince ao lado de B-52's, tudo isso entrando pelo rádio do quarto de três adolescentes em Belleville, Michigan, subúrbio a quarenta minutos de uma cidade que a indústria automobilística estava deixando morrer. Juan Atkins, Derrick May e Kevin Saunderson absorviam aquilo como quem recebe uma transmissão de outro planeta.

Detroit nos anos 1980

Detroit, no início dos anos 1980, não era uma cidade em ascensão. As montadoras fechavam linhas de produção, bairros inteiros esvaziavam, e a paisagem urbana virava um inventário de fábricas abandonadas. Não é coincidência que a cidade tenha produzido uma música obcecada por máquinas e futuro: para os três amigos de Belleville, o synth-pop europeu de Kraftwerk não soava estrangeiro. Soava como a trilha sonora exata do concreto que os cercava.

Da Cybotron à Metroplex

Juan Atkins foi o primeiro a transformar escuta em produção. Na Washtenaw Community College, conheceu Rik Davis, veterano da eletrônica experimental quase vinte anos mais velho. Juntos formaram a Cybotron e, em 1981, pelo selo próprio Deep Space, lançaram "Alleys of Your Mind": um vocoder frio sobre uma batida mecânica, vendendo 15 mil cópias sem qualquer estrutura de gravadora por trás. Não havia nome para aquele som ainda. Havia apenas a certeza de que ele existia.

May e Saunderson seguiram o amigo para dentro do estúdio, e os três passaram a operar num circuito quase invisível: gravavam em casa, prensavam em pequenas tiragens, vendiam em lojas de discos de Chicago e Nova York antes mesmo de tocar em Detroit. O selo Metroplex, fundado por Atkins, virou o ponto de saída para o que logo se chamaria techno.

Cada um dos três carrega um apelido que resume sua contribuição. Atkins é o Godfather, o que abriu a porta com a Cybotron e a Metroplex. May é o Innovator, o que levou a batida para um lugar mais melancólico, provando que música de máquina podia carregar emoção. Saunderson é o Elevator, o que soube transformar aquela linguagem crua em algo que enchia pistas.

A TR-909

Há uma ironia central nessa história: a Roland TR-909, peça que se tornaria sinônimo do bumbo do techno, chegou às mãos desses produtores porque tinha fracassado comercialmente. Lançada em 1983 e descontinuada um ano depois, sobrava barata em lojas de segunda mão, e foi exatamente essa rejeição comercial que a tornou acessível a jovens sem orçamento de estúdio.

Longe de casa

O techno de Detroit também nasceu sem reconhecimento em casa. Enquanto tocava em pistas de Chicago, Nova York e, logo depois, clubes da Inglaterra e da Alemanha recém-reunificada, a cidade que o pariu mal percebeu o que estava acontecendo em seus próprios subúrbios.

Toda pista de dança que hoje pulsa em quatro tempos por compasso, de Berlim a São Paulo, carrega um pedaço do DNA da Belleville Three. É um lembrete incômodo e bonito ao mesmo tempo: as revoluções sonoras raramente são celebradas onde nascem. Elas são celebradas onde encontram gente disposta a dançar.

Raver Lab Studio, São Paulo

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