Ir ao conteúdo

HomeJournal › Places

Places 2004 · Berlim

Berghain: o templo de concreto do techno berlinense

Como uma usina de energia abandonada no antigo Berlim Oriental virou o clube mais mitologizado do mundo

Berghain: o templo de concreto do techno berlinense

Não há placa na fachada, nem aviso do que acontece do outro lado daquela porta de metal, só uma fila que se forma horas antes da abertura. Esse é o Berghain, e antes de ser o clube mais mitologizado do planeta, ele foi outra coisa inteiramente: uma usina.

Antes do Berghain: Ufo e Ostgut

A história começa ainda com o Muro de pé. Em 1988, o selo Interfisch abriu o Ufo Club em Berlim Ocidental, epicentro inicial da house e do techno na cidade. Fechado por dificuldades financeiras em 1990, o Ufo deixou um vácuo que a reunificação ajudaria a preencher: o lado oriental estava repleto de prédios abandonados, sem dono claro, onde festas clandestinas de techno hardcore e fetiche ocupavam bunkers ferroviários ao longo dos anos 1990.

Desse caldo clandestino nasceu, em 1998, o Ostgut, clube gay instalado num antigo depósito ferroviário perto da estação de Ostbahnhof, que rapidamente virou referência da cena techno berlinense. O Ostgut fechou em 2003, vítima de um projeto de reurbanização da área.

A usina da Stalinallee

Seus fundadores já tinham um novo endereço em mente: uma usina termelétrica erguida entre 1953 e 1954 como parte do desenvolvimento monumental da Stalinallee, abandonada desde os anos 1980. O prédio, em estilo que mistura classicismo socialista com escala quase religiosa, tinha um salão de turbinas com pé-direito de 18 metros, que se tornaria a pista principal, e uma antiga sala de controle, que viraria o Panorama Bar.

O Panorama Bar abriu em outubro de 2004; o Berghain propriamente dito, em dezembro do mesmo ano. O nome é a fusão de dois bairros que se encontram bem ali, Kreuzberg e Friedrichshain, um clube batizado literalmente pela fronteira que ocupa entre dois lados de uma cidade que passou décadas dividida.

A porta

A reputação da porta, hoje quase lenda urbana, não é acidente de marketing. Sem fotos permitidas dentro, sem line-up anunciado com antecedência típica de clube comercial, com sessões que começam no sábado à noite e só terminam na manhã de segunda, o lugar se organiza em torno de uma ideia simples: a pista como território protegido.

Mais de duas décadas depois de sua abertura, o Berghain segue citado como o clube mais influente do mundo, não pelo que anuncia, mas pelo que preserva: uma arquitetura industrial reconvertida em espaço de liberdade, numa cidade que aprendeu, à força, o que significa transformar símbolos de poder em espaços de escape.

Raver Lab Studio, São Paulo

Compartilhar WhatsApp X