Não há placa na fachada, nem aviso do que acontece do outro lado daquela porta de metal, só uma fila que se forma horas antes da abertura. Esse é o Berghain, e antes de ser o clube mais mitologizado do planeta, ele foi outra coisa inteiramente: uma usina.
Antes do Berghain: Ufo e Ostgut
A história começa ainda com o Muro de pé. Em 1988, o selo Interfisch abriu o Ufo Club em Berlim Ocidental, epicentro inicial da house e do techno na cidade. Fechado por dificuldades financeiras em 1990, o Ufo deixou um vácuo que a reunificação ajudaria a preencher: o lado oriental estava repleto de prédios abandonados, sem dono claro, onde festas clandestinas de techno hardcore e fetiche ocupavam bunkers ferroviários ao longo dos anos 1990.
Desse caldo clandestino nasceu, em 1998, o Ostgut, clube gay instalado num antigo depósito ferroviário perto da estação de Ostbahnhof, que rapidamente virou referência da cena techno berlinense. O Ostgut fechou em 2003, vítima de um projeto de reurbanização da área.
A usina da Stalinallee
Seus fundadores já tinham um novo endereço em mente: uma usina termelétrica erguida entre 1953 e 1954 como parte do desenvolvimento monumental da Stalinallee, abandonada desde os anos 1980. O prédio, em estilo que mistura classicismo socialista com escala quase religiosa, tinha um salão de turbinas com pé-direito de 18 metros, que se tornaria a pista principal, e uma antiga sala de controle, que viraria o Panorama Bar.
O Panorama Bar abriu em outubro de 2004; o Berghain propriamente dito, em dezembro do mesmo ano. O nome é a fusão de dois bairros que se encontram bem ali, Kreuzberg e Friedrichshain, um clube batizado literalmente pela fronteira que ocupa entre dois lados de uma cidade que passou décadas dividida.
A porta
A reputação da porta, hoje quase lenda urbana, não é acidente de marketing. Sem fotos permitidas dentro, sem line-up anunciado com antecedência típica de clube comercial, com sessões que começam no sábado à noite e só terminam na manhã de segunda, o lugar se organiza em torno de uma ideia simples: a pista como território protegido.
O selo e os residentes
Em 2005 o clube ganhou um selo próprio, a Ostgut Ton, que passou a lançar os DJs da casa. Ben Klock e Marcel Dettmann viraram os nomes mais associados ao som da pista principal: techno longo, seco e pesado, tocado em sets de várias horas.
Sven Marquardt
O porteiro mais conhecido do mundo é fotógrafo. Sven Marquardt fotografava a cena alternativa de Berlim Oriental nos anos 1980, antes da queda do Muro, e há anos decide quem entra. Ele já disse em entrevistas que a seleção não tem roupa certa nem fórmula.
Clube como cultura
Em 2016, um tribunal fiscal de Berlim decidiu que as noites do Berghain são evento cultural, o que pôs o clube na mesma faixa de imposto de casas de concerto. Em 2020, com as pistas fechadas pela pandemia, o salão de turbinas recebeu a exposição Studio Berlin, com obras de artistas da cidade no lugar da pista.
As outras salas
O prédio tem mais do que as duas pistas. A Säule, uma sala menor, recebe programação própria, e o Lab.oratory, no térreo, funciona como clube separado, com entrada e regras próprias.
Mais de duas décadas depois de sua abertura, o Berghain segue citado como o clube mais influente do mundo, não pelo que anuncia, mas pelo que preserva: uma arquitetura industrial reconvertida em espaço de liberdade, numa cidade que aprendeu, à força, o que significa transformar símbolos de poder em espaços de escape.
A cultura do anonimato
A proibição de fotos dentro do clube reforça a ideia de que o que acontece na pista fica na pista. Essa política de preservação transforma o espaço em um refúgio onde a identidade social do dia a dia é deixada na porta.
Essa postura se alinha ao conceito de a pista como ritual, onde o foco é a presença absoluta e a dissolução do indivíduo no som.
O som de Berlim
O techno de Berlim, especialmente o moldado no salão de turbinas, é definido pela repetição e pela escala industrial. O som seco e pesado é feito para preencher o concreto e sustentar sets que atravessam dias inteiros.
Essa linhagem sonora tem raízes profundas no nascimento do techno em Detroit, que trouxe a estética das máquinas para a música.