Poucas histórias na música eletrônica são tão irônicas quanto a da Roland TR-909: uma máquina lançada para imitar bateria de verdade, rejeitada por não soar real o suficiente, e hoje reverenciada como o instrumento que mais definiu o som da pista de dança contemporânea.
Lançamento e fracasso
A Roland apresentou a TR-909 em 1983, como sucessora da TR-808. Era a primeira caixa de ritmo da marca a combinar samples com síntese analógica, e a primeira também a trazer MIDI de fábrica, permitindo sincronizar a máquina com outros equipamentos, recurso então revolucionário para produtores caseiros.
Comercialmente, foi um fracasso quase imediato. O mercado da época queria o realismo cada vez mais convincente de baterias eletrônicas como a LinnDrum, e a 909, com sua textura sintética e agressiva, não convenceu. A Roland produziu cerca de 10 mil unidades e descontinuou o modelo depois de apenas um ano.
A segunda mão
Esse fracasso é, exatamente, a origem de sua lenda. Unidades encalhadas passaram a circular baratas no mercado de segunda mão no fim dos anos 1980, e foi ali, nas mãos de produtores de house em Chicago e techno em Detroit, que a 909 encontrou seu verdadeiro público. Derrick May, Frankie Knuckles e Jeff Mills estão entre os nomes que adotaram a máquina precisamente porque ela era acessível.
O som da 909
Sonoramente, a 909 tem onze vozes de percussão, bumbo, caixa, toms, rimshot, palma, pratos crash e ride, hi-hat aberto e fechado, e um caráter que se distingue da 808: onde a 808 é grave e estourada, a 909 é seca, agressiva, quase percussiva demais para ser confundida com um baterista humano.
É exatamente essa artificialidade que virou vocabulário: o bumbo em quatro tempos que sustenta praticamente toda house e todo techno produzidos desde então carrega, em algum grau, a assinatura sônica da 909, mesmo quando reproduzida por software ou máquinas mais recentes.
Quem desenhou
O engenheiro por trás da 909 é Tadao Kikumoto, o mesmo da TB-303, a outra máquina da Roland que fracassou no lançamento e virou base de um gênero inteiro, o acid house. Na 909, bumbo, caixa, toms e palmas saem de circuito analógico. Pratos e hi-hats são samples digitais de 6 bits, e é essa resolução baixa que dá o chiado característico do ride.
O sequenciador
A máquina programa em 16 passos e tem acento, shuffle e flam, recursos que permitem dar balanço a uma batida reta sem tocar nada ao vivo. Jeff Mills ficou conhecido justamente por tocar a 909 na mão, em pista, programando e mudando padrões no meio do set.
Depois de 1984
A Roland voltou ao som da 909 décadas depois, com a TR-8, de 2014, e a TR-09, de 2016, versão compacta da linha Boutique. A unidade original, que sobrava barata no fim dos anos 1980, hoje é peça de colecionador.
O bumbo
O bumbo da 909 tem quatro controles próprios: afinação, volume, ataque e decaimento. Com o decaimento curto, ele bate seco e some. Com o decaimento longo, ele vira um grave que ocupa a pista inteira. Boa parte do techno dos anos 1990 mora nessa segunda posição, com o bumbo segurando o set praticamente sozinho.
Em quase todo programa de produção atual, o primeiro kit de bateria eletrônica da lista é uma 909.
A 909 prova algo que a indústria da música redescobre a cada geração: instrumentos não são definidos pela intenção de quem os fabrica, mas pelo uso que encontram nas mãos de quem realmente precisa deles.