Por volta de 1980, um galpão reformado na Jefferson Street, em Chicago, recebia até dois mil corpos numa única noite de sábado. No centro daquilo, atrás de duas vitrolas e um mixer improvisado, estava um homem que ainda não se via como produtor, apenas como alguém que sabia, com precisão quase cirúrgica, o que uma pista precisava ouvir no minuto seguinte. O nome dele era Frankie Knuckles, e o clube se chamava Warehouse.
Do Bronx ao Warehouse
Francis Warren Nicholls Jr. nasceu no Bronx, em Nova York, em 18 de janeiro de 1955. Ainda adolescente, formou uma amizade que mudaria a história da música de dança: ao lado de Larry Levan, começou a frequentar e depois a tocar em clubes como o Continental Baths e o Gallery, territórios onde a discotecagem ainda era arte artesanal, feita de fitas cortadas com gilete e edições caseiras.
Em 1977, o amigo Robert Williams abriu um novo clube em Chicago e convidou Knuckles para ser o DJ residente. Nascia o Warehouse, e com ele o nome que décadas depois se tornaria gênero global: house music, abreviação prática de frequentadores que pediam, nas lojas de disco da cidade, "aquele som que tocam no Warehouse".
Depois da disco
O fim dos anos 1970 foi hostil à música que Knuckles amava. A reação antidisco nos Estados Unidos, que teria seu ápice simbólico na queima de discos promovida num estádio de beisebol de Chicago em 1979, empurrou o gênero para a clandestinidade. Knuckles respondeu recusando o enterro: passou a reeditar faixas de soul e disco em fita rolo, esticando introduções, isolando batidas, complementando tudo com caixas de ritmo.
Quando deixou o Warehouse, no início dos anos 1980, Knuckles abriu seu próprio clube, o Power Plant, e seguiu refinando o que viria a se tornar uma linguagem de produção: beats mais firmes, arranjos mais generosos, uma sensibilidade que equilibrava a batida de máquina com o calor do soul.
Remixes e legado
Sua carreira como remixer se tornaria tão influente quanto sua carreira como DJ: deu forma a faixas de artistas como Chaka Khan, Michael Jackson e Diana Ross, sempre com o mesmo instinto que aprimorara em pista. Em 1997, esse trabalho foi reconhecido com o Grammy de Remixer do Ano, categoria não clássica.
Frankie Knuckles morreu em 31 de março de 2014, aos 59 anos, em sua casa em Chicago, por complicações de diabetes tipo 2, condição que o acompanhava desde meados dos anos 2000 e que, em 2008, levou à amputação de um dos pés.
O apelido "Padrinho da House" não é hipérbole de obituário. É descrição de linhagem: quase todo produtor de house do planeta pode traçar sua árvore genealógica até uma noite qualquer no Warehouse, quando um DJ do Bronx decidiu que uma pista merecia ser reinventada, disco a disco, batida a batida.