Em 29 de abril de 2006, no festival de Coachella, na Califórnia, duas figuras vestidas de robô subiram ao palco pela primeira vez em solo americano desde 1997. O que aconteceu nas duas horas seguintes é hoje tratado, por boa parte da crítica musical, como o ponto de origem de uma nova era visual para a música eletrônica ao vivo.
A pirâmide
Daft Punk chegou ao palco dentro de uma pirâmide coberta por telas de LED e luzes estroboscópicas, arquitetura de som pensada para arena, não para clube. Não havia anúncio prévio detalhado do formato do show; o mistério em torno da dupla, que já cultivava anonimato através dos capacetes, só intensificou o impacto da revelação ao vivo.
O show não seguia faixa a faixa: era montado como um megamix contínuo, costurando trechos de Homework e Discovery em transições que pareciam compostas especificamente para aquela experiência, tratando o show inteiro como uma obra única.
A turnê de 2007
A repercussão foi imediata e o formato viajou: ao longo de 2007, a pirâmide passou por Bercy, em Paris, em 14 de junho, além de Wireless Festival, RockNess, Oxegen e Lollapalooza, consolidando o que a crítica já chamava de turnê mais influente do ano na música eletrônica.
A apresentação de Bercy foi registrada e lançada como álbum ao vivo em 19 de novembro de 2007, sob o nome Alive 2007, capturando para a posteridade o que até então só existia como experiência presencial e boato entusiasmado. Em 2009, o disco recebeu o Grammy de Melhor Álbum Eletrônico/Dance.
O legado
O legado do Alive 2007 ultrapassa a dupla que o criou. A partir dali, telas de LED, estruturas cenográficas e uma lógica de "show" em vez de apenas "set" se tornaram expectativa padrão em festivais de música eletrônica, pavimentando o caminho visual que o EDM mainstream adotaria maciçamente na década seguinte.
Há uma ironia bonita nisso: um duo que escondia o rosto atrás de capacetes se tornou responsável pelo espetáculo visual mais copiado da história recente da música eletrônica.