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Opinion Ensaio

A cena alternativa ainda existe?

Uma pergunta que a cena se recusa a responder de forma simples, e talvez seja melhor assim

A cena alternativa ainda existe?

Toda geração de frequentadores de pista, em algum momento, faz a mesma pergunta com a mesma urgência: isso ainda é alternativo? A pergunta costuma vir carregada de nostalgia, como se existisse um ponto exato no passado em que a cena era "pura" e um ponto exato no presente em que ela deixou de ser.

A nostalgia de sempre

Essa nostalgia é um argumento tão antigo quanto a própria música eletrônica. Os frequentadores do Warehouse, em Chicago, no fim dos anos 1970, provavelmente já ouviam de gente mais velha que aquilo não era "de verdade" comparado ao disco original. A cena rave inglesa de 1988 foi acusada de comercial pelos veteranos do acid house de Chicago. Cada década tem seus guardiões autodeclarados da cena genuína, e cada década os ignora.

Talvez o erro esteja em tratar a cena alternativa como um lugar fixo, um endereço que se pode preservar intacto. Ela é uma relação: entre uma comunidade pequena o suficiente para se conhecer, uma música ainda não digerida pelo mercado, e um espaço que ainda não virou produto de turismo. Quando qualquer um desses três elementos muda de escala, a cena migra, não desaparece, migra.

Onde ela está hoje

É por isso que a cena alternativa de hoje raramente está onde os documentários de streaming apontam a câmera. Ela está em festas sem endereço público divulgado com antecedência, em coletivos que tocam para cinquenta pessoas num galpão sem climatização, em selos que prensam duzentas cópias em vinil e vendem em três semanas sem post patrocinado.

Isso não significa que a cena mainstream seja ilegítima. Festivais grandes, headliners de EDM, line-ups patrocinados, tudo isso coexiste com a cena alternativa sem necessariamente sufocá-la, da mesma forma que um oceano não impede a existência de rios.

O que mede a cena

O erro mais comum é medir autenticidade pelo tamanho da audiência, quando a métrica mais honesta talvez seja outra: quem está ali está disposto a proteger aquele espaço, a chegar cedo, a ficar até o fim, a tratar a pista como algo maior do que entretenimento de fim de semana?

Então, ela ainda existe? Existe, sim, só nunca vai estar exatamente onde a última geração a deixou. E talvez essa seja, precisamente, a prova de que ela continua viva.

Raver Lab Studio, São Paulo

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